Minha
adoração por arte barroca brasileira me levou, desde os tempos da
Faculdade de Artes, a investigar como se dá a conexão entre arte
sacra e artistas desinteressados por religiosidade. Basta uma olhada
na linha do tempo para constatar que o homem já expressava -
artisticamente - seus anseios e angústias muito antes do surgimento
do cristianismo. Portanto há um valor intrínseco na obra, que
prescinde da função de adoração.Começando pela representação do próprio Sidarta e o início da estória: “durante sete semanas, em busca da iluminação, Buda sentou-se embaixo da árvore bodhi para meditar e, claro, permaneceu em jejum”.
Enquanto
imagens de Buda sentado quase sempre o retratam com um físico são,
algumas raras esculturas concentram-se em ilustrar a realidade do seu
corpo esquálido.Mesmo com a caixa torácica à mostra, ombros ossudos, tendões, veias nervosas e uma magreza esculpida capaz de chocar, o Buda ainda transmite a força — física e mental — sempre encarnadas nas representações mais típicas do mestre iluminado.
De
acordo com Sildatke, "numa perspectiva intercultural, a
representação do Buda magro pode ser comparada às imagens do
Cristo crucificado, no que se refere à sua importância religiosa.
Porém não é um símbolo de morte e ressurreição, mas de
autoempoderamento, e de superação do sofrimento do espírito
humano. É um manifesto sobre a inacreditável força de vontade e
dedicação do Buda e, portanto, uma imagem icônica para os
seguidores do caminho budista".
"Foi
na antiga região de Gandhara (hoje Paquistão/Afeganistão), que as
artes do subcontinente indiano fundiram-se com a arte helenística,
levada para a região por Alexandre, o grande e seus sucessores",
explica Sildatke
"O
fascínio pelo corpo humano e uma estreita observação naturalista
da forma humana encontram-se na arte helenística e na tradição das
esculturas indianas. Na arte gandharana,
numa fusão cultural entre Oriente e Ocidente, estas tradições se
mesclam num estilo único e expressivo".